O Musical

O projeto O Beijo no Asfalto – O Musical começou a ser idealizado em 2009 pelo ator e compositor Claudio Lins e pelo diretor João Fonseca. Para compor as canções originais, Claudio se inspirou não só nas incríveis personagens criadas por Nelson Rodrigues, mas também na métrica sugerida pelo texto. Assim, expressões e frases como “não foi o primeiro, nem foi a primeira vez” ou “o sujeito cria a filha pra que um miserável venha e” serviram como ponto de partida para a criação da letra e da melodia. Paralelo a isso, Claudio fez uma extensa pesquisa sobre canções populares das décadas de 40, 50 e início da década de 60. Serviu de bibliografia a obra em dois volumes “A canção no tempo”, de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello. Assim, cantores como Elizeth Cardoso, Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto, Anísio Silva, Jorge Veiga, Jackson do Pandeiro, Vicente Celestino, Moreira da Silva, Roberto Silva, e compositores como Dolores Duran, Luis Antônio, Tito Madi, Carvalhinho e Miguel Gustavo foram uma grande referência para a criação dessa obra original.

No entanto, o compositor faz questão de frisar que as canções compostas para O Beijo no Asfalto – O Musical são, em sua maioria, de estrutura e poética contemporâneas. Nesse ponto, as maiores referências são Chico Buarque, Ivan Lins e Aldir Blanc, além de estilos como o samba moderno, o pop e o rap.

HISTÓRIA DO BEIJO

A peça O Beijo no Asfalto foi escrita em 1960, por um autor maduro. Nelson Rodrigues tinha 47 anos e era seu 13° texto teatral. Além do mais, há cerca de uma década escrevia diariamente a coluna “A Vida Como Ela É” no jornal Última Hora, experiência enriquecedora na construção de tramas e personagens. Seu domínio era tanto que, segundo ele próprio, demorou apenas 21 dias para escrever a peça. Era uma encomenda feita pela atriz Fernanda Montenegro para sua companhia, a Sociedade Teatro dos Sete. A peça estreou no dia 07 de julho de 1961, com direção de Fernando Torres e cenários de Gianni Rato. No elenco, além de Fernanda, estavam Oswaldo Loureiro, Sérgio Britto, Mario Lago, Ítalo Rossi, Francisco Cuoco,  Suely Franco e Zilka Salaberry entre outros.

Desde então a peça teve inúmeras montagens e três adaptações para o cinema. A primeira em 1963, com direção de Flávio Tambellini, tinha Reginaldo Farias, Norma Blum, Xandó Batista e Jorge Dória nos papeis principais. A segunda em 1981, com direção de Bruno Barreto, era estrelada por Ney Latorraca, Christiane Torloni, Tarcísio Meira, Daniel Filho e Lídia Brondi. A terceira, dirigida por Murilo Benício, tem estréia prevista para 2016. O Beijo no Asfalto também foi adaptada para os quadrinhos, através do trabalho de Arnaldo Branco e Gabriel Góes.

Apesar dos percalços e de muita polêmica, a primeira montagem de O Beijo no Asfalto acabou se tornando o maior sucesso de Nelson Rodrigues até então. Ao todo foram sete meses em cartaz, com duas temporadas no Rio de Janeiro (Teatros Ginástico e Maison de France) e viagens pelo sul do país. O sucesso só não foi maior devido à renúncia de Jânio Quadros, quando a peça completava cerca de um mês e meio de temporada. Obviamente, o fato fez o Brasil parar por quase 10 dias, ficando à beira de uma guerra civil.

E não foi um sucesso tranquilo. Mesmo sem ter nenhum palavrão (aliás, nenhuma das peças de Nelson contém palavrões), muitos espectadores se sentiram ultrajados com a montagem. O que fez com que o próprio autor fosse para o saguão do teatro para interpelar os espectadores que saiam no meio do espetáculo. Quase sempre, convencendo-os a voltar.

A história de O Beijo no Asfalto é baseada em fatos reais ocorridos na época. O repórter Pereira Rego, do jornal O Globo, foi atropelado por um arrasta-sandália (espécie de ônibus antigo) e antes de morrer pediu um beijo para uma jovem que tentava socorrê-lo. A personagem do repórter policial Amado Ribeiro também existiu, e era colega de Nelson na redação do Última Hora. Aliás, Nelson gostava de colocar seus colegas como personagens de seus textos. Já tinha usado o próprio Amado Ribeiro como personagem no livro “Asfalto Selvagem ou Engraçadinha: Seus Amores e Seus Pecados”.