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O Beijo que canta

O Beijo que canta

Ana Beatriz Figueras

abril 6th, 2016

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O beijo mais polêmico da história do teatro brasileiro foi escrito por Nelson Rodrigues em 1960. De lá para cá, O Beijo no Asfalto já foi encenado em palcos de todo o país e afora. Também foi registrado pelas lentes cinematográficas em 1964 (na direção de Flávio Tabellini) e em 1981 (Bruno Barreto). Mas eu nunca tinha visto esse clássico do chamado “teatro desagradável” rodrigueano em musical, como o dirigido por João Fonseca, que me fez lembrar das montagens da Broadway.

Ao longo do meu mestrado sobre Nelson Rodrigues, reli diversas vezes a peça e em nenhum momento pensei que algo poderia ser acrescentado a ela. O Beijo pode ser considerado um dos textos dramatúrgicos rodrigueanos mais redondos. Parece não ter o que encaixar, muito menos algo ousado, sobretudo porque as peças do Nelson cutucam o mais rústico do nosso ser. Mas O Beijo no Asfalto – O Musical mostrou que as notas musicais gritavam, antes em silêncio, dentro das personagens e podem ser a saída para a expressão da complexidade do ser humano nas criações rodrigueanas que beiram e às vezes mergulham no caricatural. Nelson dizia que trabalhava com monstros, que “superam ou violam a moral prática e cotidiana”. Tarados, loucos varridos e futuros suicidas são, para ele, “seres maravilhosamente teatrais”.

O espetáculo canta as dores, os amores e o Rio de Janeiro flertado por toda a obra rodrigueana. Samba sobre os mais profundos desejos e os preconceitos. Canta a corrupção da imprensa e da polícia, além da injustiça da opinião pública, assuntos sempre atuais e simbolizados na peça pela criação sensacionalista em cima de um beijo entre dois estranhos antes da morte de um deles.

Foi um pedido, segundos antes de morrer. O que você faria se uma pessoa, cujo coração está prestes a parar de bater, te pedisse um beijo? O que você faria se seu marido, ou colega, ou genro, beijasse um estranho como último pedido? Acho que quase todos nós agiríamos como os terríveis personagens da peça.

Nelson nos escancara na sua dramaturgia e nos aponta o que temos de pior. No musical, tudo é vivido, gritado, dançado e cantado. E ainda rimos com personagens como Werneck, que brilha na graça do ator curitibano Gabriel Stauffer. Só poderia dar certo com artistas tão completos. Com eles, e ao som deles, O Beijo fica ainda mais brasileiro. Batata.

Continuo aplaudindo de pé. Parabéns aos profissionais da arte que se dedicaram ao espetáculo e ao Festival de Curitiba por trazerem essa maravilha para os palcos curitibanos.

Mariana Braga

Fonte: Paraná Portal

 

 

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