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O Beijo no Asfalto – O musical no Festival de Curitiba: e o que mudou?

O Beijo no Asfalto – O musical no Festival de Curitiba: e o que mudou?

Ana Beatriz Figueras

abril 6th, 2016

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Em novembro 1961, o jornalista João Bethencourt escrevia: “Com sua mais recente peça, o Sr. Nelson Rodrigues parece ter se firmado no caminho daquilo que, na falta de termo melhor, foi chamado: ‘realismo suburbano‘”. Isso nos dá uma pequena dica do que fazia o dramaturgo, que foi um caricaturista dos tipos urbanos, mostrando suas ingenuidades e, claro, seus aspectos sórdidos.

Mais de 50 anos depois da estreia de O Beijo no Asfalto, a peça ganhou uma adaptação para um musical, o primeiro feito a partir dos trabalhos de Nelson. O ator e compositor Claudio Lins e o diretor João Fonseca se juntaram na tarefa de transformar essa grande obra da dramaturgia brasileira. Foram quatro anos de pesquisa que vieram auxiliar nas composições de Claudio.

Nos dias 28 e 29 de março, Curitiba recebeu o musical através do Festival de Curitiba. A Ópera de Arame foi o palco para essas duas apresentações que, audaciosas em sua proposta, criaram a expectativa de vermos o trabalho de Nelson sendo levado para outros campos sensoriais.

 

O QUE NELSON VIU EM NÓS

Se eu fizesse hoje uma espécie de retrato da sociedade, falando forma generalizada sobre o que a caracteriza e o que a incomoda, será que ele ainda teria algo de verídico mais de 50 anos depois? Depende. Se eu me baseasse em aspectos polêmicos (que, às vezes, são os mais comuns), como preconceito e sensacionalismo, talvez. De certa forma, O Beijo no Asfalto – O musical propôs uma grande experimentação.

A obra de Nelson Rodrigues, baseada em eventos verídicos, expõe uma história que, como disse Bethencourt, conta sobre “a degradação de um gesto de fraternidade humana e a destruição de quem o cometeu”. O protagonista Arandir, para atender o último desejo de um moribundo, o beija na boca em frente a toda a cidade, no meio do asfalto. A partir daí, toda sua vida começa a ser destruída, sendo que a culpa é, em maior parte, de um jornalista sensacionalista e calunioso.

No musical de Claudio Lins, um conto do passado, baseado em problemas da época, é trazido de volta com aspectos que o fazem confrontar com a atualidade. De acordo com o diretor João Fonseca, o texto original está na integra e as músicas compostas, baseadas no enredo, trazem poéticas contemporâneas.

ESTEREÓTIPO NOSSO DE CADA DIA

O autor de O Beijo no Asfalto tinha grande olhar para os estereótipos urbanos. No musical em questão, eles ainda estavam lá, todos bem identificáveis, mesmo que representando uma história de mais de cinquenta anos.

A dona de casa da classe média viveu em Selminha (Laila Garin); a cada fala, muito bem entonada e sonhadora, mostrava sua ingenuidade para com a vida; Dália (Yasmin Gomlevsky) foi a típica irmã mais nova mimada e impulsiva, sempre em seu uniforme de estudante; Amado Ribeiro (Thelmo Fernandes) foi excelente como aquele jornalista que, como que para preencher o próprio vazio, busca destruir os outros em troca de um bom número de leitores.

NEM TUDO É O QUE PARECE

Mas não foram nos clichês e nas cenas cômicas que o musical chamou mais atenção; nesses detalhes, não se diferenciou muito de uma típica produção “Global”. Foram nas representações das desgraças, das tramas e polêmicas (a obra têm muitas) que os atores e a produção conseguiram nitidamente causar fascinação e inquietamentos, descontruindo a opinião que se tinha sobre os personagens.

Em Dália, descobrimos haver uma paixão secreta por seu cunhado. Ela se masturba sabendo que a irmã e seu marido estão no quarto ao lado, transando, enquanto canta “E daí?”. Aprígio (Gracindo Jr.), pai de Selminha e Dália, sai de seu posto familiar preocupado para cantar, com sua voz rouca e serena, como um velho apaixonado, sobre o “estranho amor” que sente por seu genro, Arandir (fato que, até o momento, é desconhecido para quem não conhece a obra de Nelson).

Na sutileza, entre as falas dos personagens, os atores conseguiram trazer a conversa, naturalmente, práticas polêmicas, à maneira que Nelson pretendia. Amado Filho nos conta com naturalidade de sua “empregada preta gorda que abortou com um galho de mamona” e que, por estar sangrando até a morte no hospital, não pôde trabalhar.

Um pouco antes, o Delegado Cunha (Claudio Tovar) aquele que investiga e persegue Arandir baseando seu caso na notícia de jornal de Amado Filho, nos mostra como um policial corrupto interroga a mulher de um acusado: chama Selminha à sua casa para conversar e a deixa nua para que ele e seu amigo jornalista (Amado) possam se aproveitar.

Não foi apenas para chocar o público que Nelson, na década de 60, incorporou ao enredo tais personagens e situações. Nem foi por esse motivo que eles foram mantidos no musical. Naquela época, o dramaturgo sabia da sordidez de sua sociedade, do seu grande poder autodestrutivo. O musical, através de suas canções originais, trouxe à tona problemáticas semelhantes.

 PEDERASTIA INCOMODA MUITA GENTE

“Bichona!”, “baitola!”, “beijou o rapaz!”. Um homem beija outro homem, e assim se inicia o pandemônio. Ao menos, na obra de Nelson Rodrigues. Na história, percebemos que a ruína de Arandir foi motivada não apenas pela suspeita de conhecer o moribundo que beijou, mas principalmente por esse último ser também um homem. No final, até sua esposa, Selminha, que havia jurado eternamente seu amor, o abandona, acreditando nos boatos.

“Pederastia” é um termo que, muito mais comum antigamente, define uma relação amorosa entre um homem mais velho e outro mais novo, muitas vezes a tratando como criminosa.

Durante o espetáculo, pouco a pouco a vida de Arandir vai sendo despedaçada até culminar em sua morte, que foi resultado de um “estranho amor”. Num quarto de hotel onde o protagonista se esconde de tudo e todos, Aprígio, o sogro, mostra de quem, realmente, ele possuía ciúmes. Num gesto impulsivo de fúria, atira em Arandir, o homem que amou.

 

OS DIÁLOGOS COM A ATUALIDADE

No programa da peça, o diretor João Fonseca lembra de uma história notória, dos nossos tempos: o caso, de 2011, em que pai e filho foram agredidos por um grupo de sete jovens que pensaram que os dois eram um casal. Adiante, ainda no programa, lembra um momento histórico da nossa televisão: “Um beijo gay numa novela de TV mobilizou o público e as redes sociais”.

Sim, pederastia incomoda muita gente, assim como, ainda em nosso tempo, a simples homossexualidade. Nelson já sabia disso, como lembra João. O musical, que foi aos palcos pela primeira vez em 2015, retoma a problemática trazida pelo dramaturgo, adaptando-a, através das canções originais, ao nosso tempo: em uma das músicas, o “beijo gay numa novela de TV” é lembrado como algo que “todo mundo quer ver”.

Pequenos problemas (de produção) à parte, O Beijo no Asfalto – O musical, conseguiu, trabalhando em cima de uma obra icônica, propor uma conversa entre diferentes tempos e seus problemas. Conseguiu, também, criar uma dúvida: será que os tempos mudaram tanto assim?

Por Renan Archer

Fonte: Curitiba Cult

 

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