Na Mídia

O Beijo Musical no Coração do Brasil. Cinco razões para você ver!

O Beijo Musical no Coração do Brasil. Cinco razões para você ver!

Ana Beatriz Figueras

abril 6th, 2016

No comments

Fernanda Montenegro pediu e Nelson Rodrigues escreveu esta tragédia carioca em 1960, momento de intensa atividade como cronista e dramaturgo. O Brasil fervia no ritmo de um Jânio Quadros a  cantar “varre varre, vassourinha…”, prometendo limpar de vez a corrupção que assolava o país. Mais que uma tragédia de preconceito e da fragilidade das relações, o beijo fala da imprensa sensacionalista, território que Nelson conhecia de dentro (até porque seu pai tinha um jornal assim), essa imprensa que pode destruir pessoas (e até partidos políticos)  em benefício próprio, distorcendo e até inventando verdades.  Nem carece dizer que Nelson é, sempre, atual, dada a profundidade que pescou da alma brasileira, a partir de sua tribo, a ainda quase capital federal Rio de Janeiro (Brasília era criança de colo).

Assim, o musical Beijo no Asfalto é, de partida, obra necessária. Deve ser vista.

A segunda impressão que tive: “Nossa, como Nelson é musical”. Alguns grandes dramaturgos são gênios do enredo; outros, do ritmo, outros, das ideias e por aí vai. Nelson é todos eles. Com, ao menos, 2 diferenciais: é hábil no suspense. E é um esteta das frases e das palavras, um poeta. Tal como Shakespeare, suas peças são musicais. Imprime a seus textos todo um ritmo e melodia. É essa a grande sacada da equipe dirigida por João Fonseca.

Terceiro: a qualidade técnica é irretocável . Desde a escolha física (phisique du rôle)  do elenco, para conferir composições corporais/vocais que, ao mesmo tempo, correspondessem aos personagens de Nelson e resultassem cênica e musicalmente numa harmonia heterogênea; além da qualidade individual, claro – atores/cantores com inteligência e sensibilidade para imergir na obra. Porque a dificuldade enfrentada – e vencida – é a de se encontrar gente à altura da proposta. A direção encontrou. E deu a cada um dos personagens – maiores e menores – força viva idêntica. Poderia ressaltar as interpretações de Izabela Bicalho (Selminha – aliás, estreando ontem no elenco), Claudio Lins (Arandir) e Thelmo Fernandes (Amado Ribeiro) e Gracindo Junior (Aprígio), até pelo volume de seus personagens. Mas dificilmente se vê um elenco tão belo individualmente.

Quarto: o Beijo no Asfalto consegue – dentro de uma visão autoral do diretor, claro – ir além das palavras de Nelson, nos revelando nas letras e nas composições musicais os pensamentos e sentimentos para além dos conflitos de cada personagem. O musical estende, assim, a força dramática, ideológica e estética do original, e mais nos emociona e faz pensar.

Cinco: Que belezas de músicas, formando esse rio que nos arrastou do beijo à morte e à revelação. A composição mescla, de forma harmoniosa, trechos autorais com citações de grandes compositores populares. E, que bom, não precisou de tangos. As coreografias perfeitamente ajustadas completam a composição dos personagens para dar conta da raiz da peça: o Rio de Janeiro, como extensão do Brasil. Figurinos apropriados a uma peça de época, cenários e adereços extremamente simples, baratos, e com surpreendente força imagética.

Devo ter esquecido de algo. A gente sempre esquece.

É um espetáculo em dois atos, cerca de 2 horas e meia. Dificílimo em termos de ritmo, dada a profundidade desse texto – embora facilitado pela linguagem coloquial – ainda estendido pela riqueza das letras das músicas. Na segunda metade do primeiro ato chega a cansar. Talvez falte algo ligeiro que possa dar um “up” momentâneo e sacolejar a audiência. Mas, talvez, seja pelo fato de, como conhecedor da obra, eu já não ser tocado pelas surpresas da história, cena a cena. O segundo ato volta com força, muita força, e fecha o círculo com uma variação da cena inicial.

E viva o musical brasileiro!

Por Fernando Klug

Fonte: Blog Fernando Klug

 

Comments are closed.